Embora os debates sobre os objetivos e métodos utilizados para a conservação sejam provavelmente tão antigos quanto a própria conservação, o debate sobre a “nova conservação” é recente e foi estimulado por um artigo de Kareiva e Marvier (2012), intitulado ‘What is conservation science?’ (O que ciência da conservação?).
Dois pontos de vista proeminentes emergiram nesse debate, o de Kareiva e Marvier, que eles chamaram de "nova conservação", e um ponto de vista oposto que nós chamamos de "conservação tradicional". Nossa pesquisa emergiu da preocupação de que essas duas posições não descrevem adequadamente a gama de pontos de vista de pessoas que trabalham com a conservação em todo o mundo.
A nova e a tradicional posições de conservação podem ser diferenciadas por seus pontos de vista sobre o papel da “conservação centrada nas pessoas” (relacionada ao papel que as pessoas devem desempenhar na conservação), “ecocentrismo científico” (relacionado ao papel da ciência na conservação de espécies e ecossistemas) e “conservação através do capitalismo” (relacionado ao papel das corporações e abordagens baseadas no mercado para a conservação).
Nesta página estão descritas essas posições, bem como duas outras que foram previamente identificadas na literatura sobre o debate da "nova conservação". Usando diagramas, a página também mostra como essas posições se relacionam com os três eixos identificados por nossa pesquisa. No entanto, nossa pesquisa sugere que muitos pessoas que trabalham com a conservação não pertencem a nenhuma dessas quatro posições ou possuem combinações diferentes das visões expressas na literatura. Nós apresentamos a seguir descrições destas quatro posições, mas apoiamos os esforços para ir além da caracterização de pessoas que trabalham com a conservação em "posições definidas"
Uma ideia central da "nova conservação" é a redefinição da conservação como proteção da natureza de forma a melhorar o bem-estar humano (especialmente das pessoas pobres), ao invés de proteger a natureza por seu valor intrínseco (sendo assim, a pontuação é relativamente alta no eixo “conservação centrada nas pessoas”).
"Novos conservacionistas" acreditam que muitas vezes cenários “ganha-ganha”, nos quais as pessoas se beneficiam da conservação, podem ser alcançados promovendo crescimento econômico e parcerias com empresas, o que corresponde à uma alta pontuação no eixo “conservação através do capitalismo”.
Onde os novos conservacionistas se encontram ao longo do eixo “ecocentrismo científico” é mais difícil de dizer. Por um lado, os novos conservacionistas frequentemente criticam as abordagens de conservação voltadas para áreas protegidas, tornando sua pontuação nesta dimensão mais baixa do que em outras posições, como conservação tradicional. No entanto, baseado na literatura publicada, os defensores da nova conservação são geralmente entusiasmados com a ideia dos objetivos da conservação serem baseados em evidências das ciências naturais, potencialmente fazendo sua pontuação neste eixo um pouco menos negativo do que a dos cientistas sociais críticos, que frequentemente destacam a importância das contribuições de outras disciplinas.
Embora os defensores da nova conservação tenham sido criticados por acabar com a importância do valor intrínseco da natureza, os principais autores do movimento responderam esclarecendo que o motivo não é tanto ético como é estratégico ou pragmático. Em outras palavras, eles afirmam que a conservação precisa enfatizar o valor instrumental da natureza para as pessoas porque isso promove mais apoio à conservação em comparação com argumentos baseados unicamente nos direitos das espécies de existir.
Os “conservacionistas tradicionais”, ou preservacionistas, frequentemente apoiam a proteção da natureza por seu valor intrínseco, muitas vezes defendendo o uso de áreas protegidas como a principal ferramenta para a conservação (sendo assim, é alta a pontuação na dimensão “ecocentrismo científico”).
Essa ênfase no valor intrínseco da natureza normalmente leva os defensores da conservação tradicional a pontuarem de forma relativamente negativa na dimensão “conservação centrada nas pessoas”, pois autores importantes, como o Michael Soulé, afirmaram que a conservação deve ser distinta do humanitarismo e que, embora o alívio da pobreza seja de interesse moral geral, isso não deve se tornar o foco principal das organizações de conservação.
Os conservacionistas tradicionais tendem também a criticar os mercados e o crescimento econômico como ferramentas para a conservação. Isso ocorre pois eles acreditam que ao abarcar os mercados, nós corremos o risco de "vender a natureza", negligenciando espécies que podem ser consideradas de pouco valor econômico. Além disso, o próprio crescimento econômico é visto como um dos principais impulsionadores das ameaças à biodiversidade.
Talvez um exemplo claro de "ecocentrismo de mercado" seja o recente movimento chamado Nature Needs Half (assim como o movimento Half-Earth, intimamente relacionado). Em seu livro intitulado "Half-Earth", o biólogo Edward O. Wilson usa argumentos científicos baseados na biogeografia para defender a proteção de metade da área do mundo como "reservas naturais invioláveis". A motivação para essas reservas seria predominantemente proteger espécies e ecossistemas por seu valor intrínseco; daí a pontuação positiva na dimensão “ecocentrismo científico” e a pontuação relativamente negativa na dimensão “conservação centrada nas pessoas”. Considerando que essa meta ambiciosa exigiria uma redução drástica na pegada ambiental per capita em todo o mundo, Wilson apoia mercados livres como um meio de favorecer os produtos que geram o máximo lucro para o consumo mínimo de energia e recursos (daí a pontuação positiva no eixo “conservação através do capitalismo”).
No entanto, a visão pró-mercados de Wilson parece ter mais a ver com garantir que a humanidade possa prosperar em apenas 50% da superfície da Terra do que com uma ferramenta para ser usada para a conservação. Em outras palavras, a estratégia pró-mercado seria usada para amortecer a metade "humana" da Terra contra a necessidade de explorar a metade "natural", e não como um meio para criar valor econômico a partir da proteção da metade "natural".
Outros exemplos de ecocentrismo de mercado incluem estratégias nas quais ferramentas de mercado, como ecoturismo e abordagens de "disposição para pagar", são usadas para gerar receita para financiar a criação e manutenção de áreas protegidas.
Nova Conservação:
Conservação tradicional:
Ciência social crítica:
Ecocentrismo de mercado: